Uma parada e duas leituras

11/06/2014
Frederico Turolla

Pezco Microanalisys

A parada técnica do COPOM pode ser vista por dois ângulos distintos. De um lado, sem nenhuma novidade, o Comitê mantém um padrão de atuação que observa a faixa alta da
banda de política monetária, sancionando o perigoso flerte com o "pouquinho a mais de inflação" que vem marcando sua atuação nos últimos anos.

Por outro lado, para quem prefere analisar a política dentro de seus condicionantes políticos, ou seja, dada a falta de compromisso com o centro da meta, a pausa pode fazer todo sentido. Em um ciclo de política monetária, é natural que haja pontos de ponto de observação, diante das incertezas naturais sobre o comportamento do indicador-alvo de inflação, o IPCA. E ele de fato mostra sinais mais favoráveis, conforme mostra o gráfico.

grafico pezco

Os preços dos itens de alimentação e bebidas arrefeceram, e a alta desse grupo, que há dois anos bateu dois dígitos, chegou a 7,67% acumulada em doze meses até maio. O IGP-M de maio trouxe deflação nos produtos agropecuários, de 2,46%, o que pode contribuir para mais desaceleração nos alimentos no varejo.

Os preços monitorados se mostram favoráveis à trajetória corrente da inflação, mas novamente essa análise depende de que se analise a política dentro de seus condicionantes políticos, no caso, político-eleitorais. A deflação dos preços da eletricidade já se converteu em uma alta de 8,01%, cujo impacto no IPCA foi suavizado pela própria redução do peso deste item após a canetada do fim de 2012. O item saneamento veio abaixo de zero com os descontos em função da seca em São Paulo. E assim por diante.

Ou seja, para quem não vê a grande figura, o COPOM fez seu papel, com a parada técnica. Para os que preferem uma leitura mais ampla, está claro que o regime de política monetária ainda precisa de ajustes, assim como a política econômica em geral.

As boas notícias de curto prazo do IPCA não são boas a médio ou longo prazo. Não se trata apenas de identificar que os desajustes de preços relativos têm impacto bastante negativo sobre o ambiente de investimentos em vários setores. É fato que os eleitores já começaram a sentir a corrosão de seu poder de compra com esse "pouquinho" de inflação adicional - e podem se assustar se descobrirem o tamanho da conta que vão arcar quando for preciso soltar tudo o que está represado.

 

Veja esta e mais notícias econômicas na Carta Mensal da Pezco Microanalysis - edição de Junho 2014.