Onde é o fundo? Tem fundo?

22/10/2015
Frederico Turolla

Pezco Microanalisys

Visto do Brasil, o mundo está realmente em uma crise de grandes proporções. Pelo menos é o que o diz um desses argumentos que o governo usa para se esquivar da responsabilidade pela crise.

O gráfico a seguir diz isso claramente: a linha preta mostra o crescimento do mundo (linha preta) e o crescimento do Brasil (linha verde). Ambos são calculados para a média de quadriênios. Veja que o Brasil despencou em relação ao mundo, tanto agora quanto na época de Sarney.

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Bom, não é preciso repetir nem estressar o quão ridículo é o argumento governista de que a crise é mundial e que o Brasil apenas sente os maus ventos do mundo. Acho que pouca gente ainda se agarra nesse tronco, exceto por interesses pessoais ou partidários.

Impressiona a semelhança gráfica do momento atual com o fim dramático dos anos 80. Talvez isso valide a tese conspiratória de que a crise brasileira tem raízes políticas, causada, nesta e naquela ocasião, pela ação da imprensa golpista e das elites incomodadas. Aqueles argumentos que dão sono...

Quais foram os pontos de virada pós-Sarney? As eleições de 1989, e o fato de que o governo que assumiu em 1990, bem ou mal, era mais comprometido com reformas liberalizantes que têm efeito positivo sobre a produtividade da economia. E, em 1992, veio um bom impeachment.

E, após o impeachment, o governo Itamar realmente tomou o caminho das reformas institucionais, que foi seguido nas duas administrações seguintes de FHC. Foi uma bomba de ganhos de produtividade que até pouco tempo sustentou o crescimento, mesmo com os desaforos à produtividade desferidos desde Lula.

Por enquanto, esta é a principal diferença entre Sarney e Dilma. Ambos os governos foram desastrados, mas o primeiro foi sucedido por administrações que retomaram o caminho da prosperidade. O impeachment abreviou o processo e melhorou a história.

Já quanto ao segundo, ainda não podemos dizer nada. O melhor que temos hoje é um Levy, xingado e fritado, fazendo um papel de bobo que nenhum de nós gostaria de fazer. Se rir por último, será tido como um vencedor, mas está apostando muito alto diante da chefe que tem e das forças políticas que sustentam o governo de que participa.

A pergunta que todo mundo se faz é: onde é o fundo do poço? Os mais pessimistas perguntam: tem fundo? Considerando o óbvio exagero destes últimos, vamos à primeira pergunta.

A principal questão de achar o fundo é quando ocorrerão mudanças efetivas na correlação de forças políticas, já que sob Dilma só há um Levy e mais algumas centenas de técnicos de alta qualidade espalhados pela Esplanada e adjacências, mas todos estes sem poder para mexer em qualquer coisa.

Vejamos os sinais. Em 1989, as eleições já mostravam uma mudança de curso que, ainda que desastradamente com Collor, efetivamente ocorreu. Foi esse o ponto de virada. Qual o ponto de virada desta vez?

Hoje, a opinião pública hoje já mostra também uma mudança de curso semelhante (se quiser saber minha opinião sobre essas mudanças de curso, veja este post: http://leonardotrevisan.com.br/blog/a-feira-do-protesto/). Mas as eleições de 2018 estão distantes demais para ajudarem como ponto de virada.

Se nada acontecer antes de 2018, o fundo vai mudar de lugar. Para baixo. O que pode acontecer antes disso? Perdão por não responder, minha bola de cristal está bem embaçada.

Para empresas e investidores, a grande pergunta é quando acontecerá essa retomada, que vai ocorrer, acredite. Tudo depende dos fatos, que podem precipitar ou não a mudança de curso. Vivamos e vejamos.