O que vem depois do “choque Trump”

16/11/2016


Itaú Unibanco
A eleição presidencial nos EUA delineou um novo ambiente externo. Acreditamos que, com o apoio dos congressistas republicanos, o presidente Donald Trump terá capacidade para implementar um grande estímulo fiscal. Há incerteza sobre as políticas relacionadas a comércio exterior, imigração, desregulamentação e reformas microeconômicas, mas integrantes da equipe de transição enfatizaram que medidas do lado da oferta também farão parte do pacote inicial. Por ora, consideramos estes como fatores de risco ao nosso cenário. O efeito líquido do estímulo fiscal é expansionista, em uma economia que já está próxima ao pleno emprego. Essa mudança na política fiscal contribuirá para a tendência de alta dos juros americanos. Esperamos que o banco central eleve os juros em dezembro e mais duas vezes em 2017, mas o risco é de que ocorram três acréscimos. Para 2018, esperamos agora quatro altas de juros (duas, no cenário anterior). Para os mercados emergentes, a vitória de Trump é negativa de modo geral. Avaliamos que os juros mais altos nos EUA vão pressionar as moedas e os juros nos países emergentes. Ademais, os riscos associados a protecionismo e guerras tarifárias também são negativos.

Na América Latina, a economia mexicana é a mais vulnerável (como refletido no desempenho ruim do peso ao longo do ano) e, assim, reduzimos nossa projeção de crescimento em 2017. O menor investimento no setor manufatureiro mexicano vai afetar o crescimento, uma vez que a incerteza com relação às políticas protecionistas deve permanecer por algum tempo. Países com maior fragilidade no balanço de pagamentos (como Argentina e Colômbia) também são mais vulneráveis. Por outro lado, o Chile, que exporta cobre (commodity que já se beneficia da expectativa de estímulo fiscal nos EUA) e tem um déficit em conta corrente baixo, está mais preparado para enfrentar o cenário externo mais adverso.

No Brasil, as reformas fiscais continuam avançando. Em outubro, a Câmara de Deputados aprovou a proposta de emenda constitucional que limita os gastos públicos. Os dados recentes de atividade econômica decepcionaram, mas os indicadores antecedentes e os fundamentos continuam sugerindo recuperação à frente, impulsionada pela indústria. A inflação vem consolidando uma trajetória de queda. Diante do novo ambiente externo, projetamos agora uma taxa de câmbio mais depreciada. O Banco Central provavelmente vai optar por proceder gradualmente, com outro corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) nos juros, em vez da redução de 0,50 p.p. que esperávamos antes, devido à maior incerteza gerada com o resultado das eleições americanas.