Novíssima Matriz Macroeconômica

27/02/2015
Frederico A. Turolla
Sócio da Pezco Microanalysis, Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Gestão Internacional da ESPM e Coordenador do Comitê Financeiro e Econômico da SWISSCAM
Pezco Microanalisys

O Plano Real, em 1994, foi suportado por um regime macroeconômico que ancorou a inflação em uma taxa de câmbio apreciada, um remédio amargo, mas comum entre os países que experimentaram hiperinflações. Após a estabilização dos preços, o Brasil passou a contar com um regime moderno que, a partir de 1999, garantiu a estabilidade da economia brasileira e ofereceu o suporte para uma era de prosperidade e destaque da economia brasileira.

Esse regime durou até a segunda metade da década passada. No governo Dilma, foi sucateado e substituído por um novo regime, discricionário e intervencionista. O fracassado regime que vigeu até o ano passado era chamado, pelo próprio Ministério da Fazenda, de Nova Matriz Macroeconômica. Seu fracasso levou o governo, no segundo mandato, a aceitar a sua substituição por um regime mais parecido com o antecedente. Pode-se chamar o atual regime, do segundo mandato, de Novíssima Matriz Macroeconômica.

Entre a "Nova" e a "Novíssima", há uma envergonhada conversão da Presidente ao neoliberalismo macroeconômico. Essa conversão súbita encerra riscos importantes. Entre eles, a forte dependência que a credibilidade da política macroeconômica passou a ter em relação a um único homem, Joaquim Levy, que se transformou em um fiador da estabilidade.

Até o momento, a Presidente vem respaldando as políticas da Novíssima Matriz, afinal sem esse respaldo elas não existiriam. Entretanto, é notável a ausência de discursos contundentes nesse sentido, por parte da Presidente, que aparenta um apoio envergonhado.

Uma expressão pública do respaldo presidencial à Novíssima Matriz seria desejável, mas ainda assim não bastaria. Uma sinalização mais firme, efetiva, viria apenas do comprometimento presidencial com algo mais amplo, ou seja, a criação de dispositivos institucionais seguros, menos dependentes do ciclo político. Será preciso dar mostras de que o regime de política macroeconômica não está sujeito às flutuações conjunturais dos objetivos políticos do governo.

Uma sinalização firme e efetiva poderia incluir o enfrentamento decidido de questões centrais, como a independência do Banco Central, a implantação de regras fiscais bem mais ousadas, um choque de abertura da economia, ou mesmo um compromisso com a retirada de grandes estatais ou bancos públicos da órbita política - por exemplo, com uma grande privatização. Colabora, neste sentido, a crescente percepção da opinião pública sobre o efeito nefasto da generalização do mau uso político e econômico das empresas públicas. A opinião pública já começa a perceber que o discurso antiprivatização tinha conteúdo oportunista e que muitas estatais estão na rota de um desastre que, mesmo para os críticos, se afigura muito pior que uma privatização.

A precipitação dos fatos já era amplamente esperada pela esmagadora maioria dos analistas sérios - a divergência era sobre a velocidade da derrocada. Os riscos foram amplamente antecipados e discutidos pelos convidados que lideraram discussões no Comitê Financeiro e Econômico da SWISSCAM, em diversas reuniões, nos últimos dois anos.

 A reputada e excepcionalmente qualificada equipe do Ministério da Fazenda não bastará para uma reversão do cenário negativo. Enquanto estiver isolada em seu prédio na Esplanada dos Ministérios, sem a efetiva capacidade de ação junto ao Congresso Nacional - o que requer um apoio firme e decisivo do Palácio do Planalto - não logrará reverter a trajetória ruim que as más escolhas governamentais dos últimos anos impuseram ao país. Em outras palavras, credibilidade da equipe econômica evitou uma crise que poderia ter acontecido já no fim do ano passado, mas não será suficiente para uma retomada consistente dos investimentos ou do crescimento.

Com vergonha e indecisão presidencial, sem mostras efetivas de comprometimento com mudança institucional em prol da estabilidade macroeconômica e da competitividade, a Novíssima Matriz Macroeconômica, pelo que já se mostrou, é uma resposta tímida frente aos grandes desafios atuais da economia brasileira.

Date : 2015-03-03 16:09:13