Mensagem do Embaixador do Brasil na Suíça
Relatório Anual 2006; pág. 35
Uma parceria renovada
Agradeço à Câmara de Comércio Suíço-Brasileira o convite para ocupar este espaço em seu Relatório Anual. Assumi a Embaixada em Berna em setembro de 2006, mas antes mesmo de minha chegada ao posto já havia tido o prazer de estabelecer contato com a SWISSCAM, no mês anterior, durante a visita a São Paulo do Chefe do Departamento das Américas da Secretaria de Estado de Economia (SECO), Philippe Nell. Compareci, na oportunidade, a um seminário na residência do Cônsul-Geral Giambattista Mondada, onde pude encontrar vários representantes da comunidade empresarial suíço-brasileira.Para mim, tem sido motivo de satisfação profissional comprovar que as relações entre o Brasil e a Suíça continuam a dar mostras de dinamismo. Dados sobre comércio e investimentos são bem conhecidos dos membros da SWISSCAM. O que desejo ressaltar aqui, como sinal do desenvolvimento positivo que vêm tendo ultimamente nossos vínculos bilaterais, é o diálogo que se intensifica entre os dois Governos, os projetos e iniciativas que se diversificam e, sobretudo, as perspectivas de uma cooperação que desejamos sempre mais aprofundada.
Para participar da cúpula do Fórum Econômico Mundial, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve novamente em Davos em janeiro deste ano. O Chanceler Celso Amorim e outras autoridades o acompanharam neste encontro de grande ressonância internacional. A necessidade de avanço nas negociações comerciais multilaterais mereceu especial destaque e foi objeto
de uma reunião específica presidida pela Conselheira Federal Doris Leuthard, da qual participou o Ministro Amorim. Evento importante em Davos que contou com a presença do Presidente Lula, entre outros, foi a reunião do Business Interaction Group on Brazil (BIG). Ali estiveram dirigentes de várias empresas suíças dos setores industrial e financeiro, bem como de outros países.
A visita da Conselheira Federal Doris Leuthard ao Brasil no início de fevereiro marcou, por sua vez, um momento de especial significado em nosso atual relacionamento com a Suíça. Foi assinado na ocasião um Memorandum de Entendimento que cria a Comissão Mista Brasil-Suíça para relações Comerciais e Econômicas.
O estabelecimento desse foro bilateral vem preencher uma lacuna, porquanto não dispúnhamos até então de instância de diálogo institucionalizada capaz de dar impulso às áreas de interesse comum, seja no plano do comércio e dos investimentos, seja no plano da cooperação científica e tecnológica. A Comissão nasce, assim, com a vocação de se tornar um foco de coordenação e convergência entre os dois Governos e, sobretudo, entre os representantes do setor privado. Outro ponto importante na programação da visita da Conselheira Federal foi a inauguração da fábrica da Nestlé em Feira de Santana, Bahia, com a presença do Presidente da República.
No mesmo espírito de cooperação, a Embaixada do Brasil em Berna vem apoiando a parceria recentemente estabelecida entre o Instituto de Desenvolvimento Integrado (INDI), do Estado de Minas Gerais, e o Centro Suíço de Eletrônica e Microtecnologia (CSEM), de Neuchâtel. Logo no início de minha missão, ao receber em Berna a visita do Presidente do INDI, Reginaldo Arcuri, assinei com o Embaixador da Suíça no Brasil, Rudolf Bärfuss, um documento conjunto pelo qual os respectivos Governos reconhecem a importância desse programa de colaboração entre o INDI e o CSEM, do qual resultará a implantação no Brasil de um centro de nanotecnologia e de uma fábrica de microsistemas. Trata-se de desenvolver uma cooperação considerada prioritária no âmbito da nossa política industrial, tecnológica e de comércio exterior, e para o êxito de tal iniciativa muito contribuiu a participação do Swiss Business Hub da OSEC (Business Network Switzerland) em São Paulo.
Nos poucos meses em que estou servindo na Suíça, tenho procurado estreitar os contatos com a comunidade empresarial ligada ao Brasil. Em novembro de 2006, a convite da OSEC, participei em Zurique de um seminário com representantes da indústria farmacêutica, de equipamentos médicos e dentais, bem como de cosméticos, ao qual compareceram especialistas brasileiros. Paralelamente, iniciei programa de visitas às principais empresas suíças com investimentos no Brasil, entre as quais destaco a Nestlé, a ABB (Asea Brown Boveri) e a Bühler AG, além da Câmara de Comércio Latino-Americana na Suíça, sediada em Zurique, hoje sob a presidência de Richard Friedl.
Um tema ao qual tenho dedicado atenção é a possibilidade de Brasil e Suíça estabelecerem alguma forma de cooperação no campo das energias renováveis. Com esse objetivo, a Embaixada em Berna tem intensificado o intercâmbio de informações com as autoridades e órgãos suíços competentes, buscando, em particular, divulgar a evolução da experiência brasileira na produção e exportação de biocombustível. Aproveito, aqui, para ressaltar as iniciativas que o Embaixador Bärfuss tem desenvolvido no Brasil com o mesmo objetivo. Em particular, menciono seu valioso artigo publicado na revista de política externa Politorbis do Departamento Federal dos Negócios Estrangeiros, sob o título “Brasil – parceiro no desenvolvimento sustentável para a perspectiva de ingresso do bioetanol brasileiro na Suíça”. Creio que a Suíça, como sócia tradicional do Brasil, muito poderia contribuir para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) recentemente lançado pelo Governo do Presidente Lula, em especial no que tange às parcerias público-privadas, tendo em vista a excelência da sua experiência em obras de infra-estrutura. Este também é um campo em que podemos continuar a aprimorar a nossa parceria. Mas não é só o comércio e as relações econômicas que unem o Brasil e a Suíça. O trabalho de difusão cultural, por exemplo, tem merecido especial prioridade da parte da Embaixada em Berna. Temos organizado e apoiado eventos relevantes, entre os quais saliento a exposição “Amazônia Brasil” inaugurada em setembro de 2006 no Centro de Convenções de Lausanne; o concerto da orquestra de câmara de Berna (Camerata Bern) intitulado “Uma viagem musical pela América do Sul”, que se realizou em novembro; a exposição “Encontro com Oscar Niemeyer” em janeiro de 2007 na Basiléia; e o recital de uma talentosa pianista brasileira da nova geração, Sylvia Thereza, no mesmo mês, no Conservatório de Berna.
Ao lado de toda a riqueza e densidade das relações entre o Brasil e a Suíça, existe acentuado interesse, de parte à parte, no fortalecimento do diálogo político. Entre as duas Chancelarias tem havido consultas regulares. Já se consolidou uma prática de colaboração entre os dois países nos foros internacionais, aspecto que tende a ganhar maior relevo ainda no contexto da reforma das Nações Unidas e do lançamento da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio. O Brasil valoriza, portanto, a Suíça não apenas como parceiro econômico, em função dos investimentos, do potencial do comércio, das novas oportunidades de cooperação tecnológica, mas também como interlocutor político com o qual desejamos compartilhar nossas visões em relação a temas como a paz, os direitos humanos, o meio ambiente, os desafios do desenvolvimento e o combate à fome e à pobreza.
A agenda do relacionamento Brasil-Suíça tem-se, portanto, ampliado, e isso só reforça minha confiança pessoal em um futuro de crescente aproximação.