Mensagem do Embaixador da Suíça no Brasil

30/03/2017
André Regli

Relatório Anual 2016; pág. 25
http://www.swisscam.com.br/edicao-2016.html

Essa será a minha última mensagem anual para o relatório da Swisscam como Embaixador da Suíça no Brasil. Ao final deste ano deixarei, com muitas saudades, este maravilhoso país, para o qual fui designado duas vezes durante a minha carreira diplomática. Dentre diversas atividades nesta minha segunda passagem pelo Brasil, tive o prazer de acompanhar eventos globais, como a Copa do Mundo de Futebol em 2014, e as Olimpíadas e Paraolimpíadas em 2016. Uma campanha de comunicação "Swissando" me acompanhou durante todo o período. Nestes quatro anos o Brasil presenciou a maior crise econômica e política na sua história desde a democratização. Acima de tudo isso veio à tona "Lava Jato", que influenciou e vai continuar influenciando a política e economia do país. Então foram quatro anos muito intensos para a diplomacia suíça e para mim pessoalmente.

Esses grandes acontecimentos no Brasil foram acompanhados por diversas campanhas e atividades de nossa parte. Em 2014, lançamos a campanha de comunicação "Swissando", que buscou apresentar a cultura suíça para os brasileiros e, com isso, reforçar a amizade entre os povos. Dentro dessa campanha de comunicação tivemos a primeira edição da House of Switzerland, cujo objetivo foi mostrar conquistas da Suíça nas áreas de inovação, ciência, tecnologia. Já em 2015 tivemos a honra de ver a Suíça como enredo da escola de samba Unidos da Tijuca. Uma honrosa homenagem para nós. Latões de leite, fábrica chocolate, pista de patinação e relógios dançaram juntos e alegres pelo Sambódromo no belíssimo carnaval do Rio de Janeiro. No ano de 2016, inauguramos o Baixo Suíço 2, que serviu como ponto de confraternização oficial do governo suíço durante as Olimpíadas e Paraolimpíadas. Os visitantes, entre atletas e torcedores de todos os cantos do planeta, assistiram aos jogos com muita harmonia e energia positiva na bela estrutura que montamos em um terreno de 4,1 mil m². A inauguração do local ocorreu coincidentemente no Dia Nacional da Suíça, 1º de agosto. Na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, que muito lembra a nossa Lugano com seus belos lagos e montanhas, o Baixo Suíço 2 apresentou a Suíça aos interessados com pista de corrida, globo de neve gigante, patinação no gelo, além de churrasco suíço.

Em todos esses eventos conseguimos aprofundar a relação Suíça-Brasil e nos conectarmos nas mais diversas áreas, tais como economia, turismo, cultura, ciência, tecnologia e inovação. Criamos, assim, oportunidades e visibilidade para as empresas e os produtos suíços, mostrando a Suíça moderna, aberta e acolhedora, muito além dos clichês. Afastamos ainda a Suíça da estigmatização de porto seguro de dinheiro ilegal. Nesse campo, Suíça e Brasil assinaram, em novembro de 2016, a declaração conjunta para introduzir a troca automática de informações para fins tributários (AIA). Pretendemos coletar os dados no mesmo padrão global de informações a partir de 2018 e iniciar a efetiva troca de dados a partir de 2019. Com a visita do Vice-Ministro Senhor Jörg Gasser, Secretário de Estado de Assuntos Financeiros Internacionais da Suíça, confirmamos o compromisso do combate à corrupção, e as nossas instituições estão colaborando constantemente com a Operação Lava Jato. O nosso Presidente da Confederação Suíça, Johann Schneider-Ammann visitou o Brasil em agosto de 2016, durante as Olimpíadas. Ele teve profícuos encontros com o Ministro das Relações Exteriores, José Serra, com o Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, e com o Ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira. Conversaram sobre a relação Mercosul-EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio), questões fiscais e cooperação na área de pesquisa e tecnologia. Falando nos blocos econômicos, sou otimista quanto ao avanço nas negociações para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a EFTA. A etapa inicial com os diálogos exploratórios já foi concluída e comemorada em Davos em janeiro desse ano e devemos começar ainda neste ano as primeiras reuniões negociadoras.

Apesar das lacunas do governo brasileiro, as parcerias nas áreas de ciência e tecnologia foram intensificadas e houve avanço no setor em 2016 para os dois países. Durante a visita do Secretário de Estado de Assuntos Exteriores, Yves Rossier, foi assinado acordo com o Ministério da Defesa do Brasil para intensificar as parcerias nessas áreas na Amazônia. Em breve alinharemos as necessidades, para definirmos o conteúdo específico do acordo.

O cenário político brasileiro foi tomado por uma avalanche de incertezas no ano de 2016 e o país vive atualmente as consequências de uma política econômica equivocada, adotada por volta de 2005 e aprofundada a partir de 2011. A atual crise econômica, a pior da história brasileira, promete se arrastar ainda durante o presente ano, embora com uma pequena melhora em relação a 2016. Medidas duras, mudanças estruturais e reformas arrojadas para revitalizar a economia estão a caminho e colherão os frutos em breve. Tanto a superação da crise política quanto a aprovação de medidas que indiquem um compromisso do governo com as contas públicas serão essenciais para a superação.

De todo modo, as empresas suíças que atuam no Brasil devem focar no longo prazo, com persistência e adaptações frequentes à nova realidade do mercado. Independentemente de alguns cortes, há empresas suíças no Brasil que não se abalaram com a crise e estão investindo na modernização e adaptação das instalações, ampliando a capacidade de produção. Há confiança na melhora da situação política, que resultará, sem sombra de dúvidas, em uma mudança de expectativa e benefícios para a economia. Várias empresas suíças, apesar da crise, continuam vendo o mercado brasileiro com enormes potencialidades. Por exemplo, a companhia farmacêutica Roche investiu em 2016 R$ 192 milhões na modernização e ampliação de sua fábrica em Jacarepaguá, e até o fim de 2017 serão investidos mais R$ 75 milhões na fábrica. Também as empresas SGS, Nestlé, Galderma e Zurique Airport, por exemplo, continuam investindo no país.

Agradecendo a Câmara de Comércio Suíço-Brasileira pela excelente colaboração e todas as empresas suíças pelo apoio durante meu mandato no Brasil. Estou confiante que, mesmo com um ano bastante desafiador pela frente, o futuro será repleto de muitas oportunidades promissoras. Não faltarão motivos para eu voltar a este país maravilhoso.