Brasil e Suíça

20/12/2013
Pedro Godeguez da Silva
Economista com Mestrado em Gestão Internacional pelo PMDGI/ESPM e consultor da Pezco Microanalysis.
Editorial Swisscam Magazine 75
http://www.swisscam.com.br/edicao-75-foco-comercio-exterior.html

 

Brasil e Suíça apresentam ritmos de crescimento diferentes. Enquanto a Suíça deverá crescer nos próximos anos entre 1,5% e 1,8% ao ano, o Brasil deverá obter pelo menos meio ponto percentual a mais a cada ano. A diferença de velocidade relativa das economias reflete o contexto da crise europeia e também o diferencial de crescimento que tem sido típico entre economias desenvolvidas e emergentes. Os desafios econômicos têm sido diferentes. Enquanto a Suíça busca aquecer sua economia, hoje com uma inflação abaixo de zero, o Brasil se debate com valores acima do centro da meta inflacionária. A Suíça possui um governo superavitário, e está chegando a um superávit em conta corrente de aproximadamente 13% do PIB, confirmando a solidez de seu rating AAA, enquanto que o Brasil lida com déficits crescentes tanto na área fiscal quanto no setor externo.

A relação econômica entre os dois países é não somente importante como também promissora. No lado dos investimentos, é interessante o potencial de incremento das relações econômicas dos dois países, por exemplo, na área de infraestrutura. As empresas suíças realizaram, até hoje, relativamente poucos projetos de operação direta de serviços de infraestrutura no Brasil, mas estão presentes em setores como energia e logística. Recentemente, a Flughafen Zurich AG participou do consórcio que arrematou a concessão do aeroporto internacional de Confins em Belo Horizonte. Além da operação direta, algumas companhias suíças tem participação relevante em pontos estratégicos da cadeia de fornecimento dos serviços de infraestrutura no Brasil e tendem a se beneficiar do momento vivido por este setor na economia brasileira.

Na tentativa de reduzir as assimetrias de informação causadas pelo direcionamento dos investimentos diretos via países intermediários, o Banco Central do Brasil recentemente apresentou uma identificação mais precisa dos reais países em que se originam os fluxos de investimento direto estrangeiro no Brasil. Com isto, foi possível identificar que a Suíça, na verdade, tem uma participação 40% maior no estoque de investimentos estrangeiros diretos recebidos pelo Brasil.

Um acordo bilateral para evitar a bitributação poderia contribuir para o incremento dos fluxos de investimentos entre os dois países, reduzindo os custos de transação de investimentos que passam hoje por terceiros países. Este ponto se torna particularmente relevante no contexto da nova regulamentação brasileira sobre as subsidiárias internacionais, que afeta a escolha de destinos do investimento direto brasileiro no exterior.

Além das oportunidades de investimentos, o âmbito comercial também se mostra cada vez mais relevante, o volume do comércio exterior entre os países tem apresentado taxas robustas de crescimento nos últimos anos. Um destaque curioso é que o Brasil, reconhecido por ser um dos grandes produtores mundiais de café (in natura), tem importado café (beneficiado) da Suíça. Mais até do que os famosos chocolates. De fato, o cafezinho suíço tem se destacado na pauta de exportações helvética, representou cerca de CHF 1,8 bilhão em 2012. Uma das possíveis explicações pode ser atribuída à inexistência de tarifas para a importação do grão in natura, associadas às tarifas para a importação do grão beneficiado, de grãos torrados aos extratos, essências e concentrados de café. Como resultado, entre 2008 e 2012 as exportações suíças de café cresceram aproximadamente 140%. Estes expressivos resultados comerciais indicam que o país acertou o alvo com uma mira digna de Guilherme Tell, no entanto, ao tomar aquele expresso suíço, talvez seja possível identificar algum aroma das fazendas do Espírito Santo, Minas Gerais ou São Paulo.