30/09/2013
Luiz Carlos Carvalho
Coach e mentor de executivos seniores e de grupos corporativos de diferentes países, culturas e níveis hierárquicos. Fundador e presidente da SCIONBR – Serviços de Apoio Administrativo Ltda. Atua também como conferencista para empresas e instituições de ensino nas áreas de Marketing, Vendas, Gestão de Pessoas, Aconselhamento de Carreira e Liderança Corporativa.
Editorial Swisscam Magazine 73
http://www.swisscam.com.br/edicao-73-foco-mulheres-na-lideranca.html

 

"Vive la différence!"

No mundo corporativo está na hora de homens e mulheres entenderem que são capazes de gerar resultados idênticos ou até muito melhores, trilhando caminhos diferentes. A igualdade não é inteligente e gera obstáculos de carreira para ambos os sexos, mas hoje ainda há uma clara desvantagem para as mulheres, que tentam infrutiferamente ocupar espaços usando características "masculinas" que as afastam do sucesso e tornam sua jornada mais longa. A aceitação da diversidade cultural entre os sexos e o entendimento são as chaves para o progresso das relações e exploração plena dos potenciais existentes.

Existem raízes que levaram a sociedade a perceber a mulher executiva de uma forma tão diferente: através de nossa existência, nós, homens e mulheres, sempre premiamos as mulheres por serem doces, meigas e afáveis e os homens por serem fortes, destemidos, firmes e corajosos. Aprendemos assim e ensinamos nossos filhos e filhas a serem assim. Quando uma mulher executiva quebra este paradigma social milenar e adota posturas tipicamente percebidas como masculinas, automaticamente se projeta para dentro de um estereótipo que pode marcá-la por muito tempo. Sua ousadia pode representar um bloqueador ou até mesmo um forte descarrilador de carreira de sérias proporções, pois pode fixar marcas indeléveis que a perseguirão pelo resto de suas atividades profissionais - a menos que mude de empresa e de postura.

Parafraseando Charles Darwin, também acredito não ser somente a força, nem a inteligência, mas sim a combinação destes atributos com a emoção e a flexibilidade que assegurará o futuro de nossa espécie. Vivenciamos um momento da existência que se mostra muito adequado para confirmarmos esta visão: as histórias de sucesso das mulheres que se converteram em verdadeiros ícones de liderança nos mostram em intensa maioria que sempre houve um fator comum a todas elas: jamais abdicaram de sua feminilidade nem renunciaram às suas condições sociais como mulheres. Elas aprenderam a desenvolver o melhor dos dois gêneros. Alguns poucos exemplos podem ser mencionados aqui: Evita Perón, Madre Teresa, Hillary Clinton, Coco Chanel, Cleópatra, Joana D'Arc, Maria Quitéria, Anita Garibaldi, Mata Hari, Marie Curie, Indira Ghandi, Benazir Buttho, Diana de Galles etc.

Enquanto ocupava o cargo de presidente regional de uma empresa global de especialidades químicas, tive que estabelecer metas ousadas para diretores de dois países da America Latina, os quais apresentavam dimensões de negócios e problemas de performance similares. Um dos países era chefiado por uma executiva da Argentina, e o outro por um profissional da Colômbia. Os dois países que eles chefiavam apresentaram desempenhos medíocres e, após a revisão de metas e a fixação de novos planos de trabalho, ambos conseguiram impressionantes "viradas de jogo" e converteram os resultados em motivos de muito orgulho para eles e para suas equipes. Em duas reuniões, solicitei a dois diretores (também diferentes) que avaliassem os resultados e a performance de cada um dos "Country Heads" que lideraram os processos. Na primeira reunião, o líder colombiano foi enaltecido como uma pessoa muito competente e considerado o vetor do sucesso alcançado no país que chefiava, graças à sua liderança firme. Já na segunda reunião, a executiva argentina foi veladamente rotulada como "mandona", centralizadora e teve parte de seu sucesso percebido como oriundo de contingências fora de seu controle, tais como conjuntura econômica e social, relações com clientes que foram melhoradas etc.

Foi através de exemplos como esse que aprendi: quando uma mulher conduz uma equipe ao sucesso através de uma liderança forte, ela não é tão apreciada e admirada quanto o homem.

Por que a mulher não pode ser "mulher" nos níveis mais altos de uma organização? Por que a racionalidade masculina deve prevalecer, em prejuízo da emotividade, sensibilidade e outros atributos típicos das mulheres? Estas são perguntas que ainda precisamos responder. Na vida pessoal, sabemos que ainda é assim: o homem tem a fama de "fugir" da mulher competitiva. As mulheres de mais forte personalidade conhecem esta situação e o distanciamento acontece de fato porque a mulher racional, objetiva e de presença forte não corresponde aos padrões registrados em nossa cultura. Fomos educados a procurar pela mulher com o estereótipo feminino mais marcante possível: "uma mulher carinhosa, atraente, honesta, fiel, companheira, boa mãe, que possa cuidar bem de meus filhos e de nossos recursos enquanto eu trabalho". Você já encontrou algum homem que ainda acrescentou a esta frase: "... e que seja também competitiva, me dê segurança, que tenha liderança forte, que seja decidida e firme, autossuficiente e independente..."?

Logo, torna-se um paradoxo e um dilema para nós, homens, poder encontrar em uma mesma mulher as duas plataformas. Este aprendizado ainda está por acontecer.
Recomendo que as mulheres executivas voltem as atenções para um fato pouco comentado ou até mesmo reconhecido, mas que considero o verdadeiro mapa para o sucesso de carreira e de vida: a liderança e o sucesso podem ser conquistados com outras armas, aquelas que as mulheres têm e não somente com a força e o discernimento masculino. São características que raramente estão acessíveis aos homens nas mesmas intensidades: a capacidade de liderar com afetividade, carisma, habilidade de dialogar continua e profundamente, a capacidade de ouvir e compreender pessoas e a flexibilidade para repensar tudo a respeito de suas ações e iniciativas. Por fim, ter consciência plena de suas capacidades, limitações e, acima de tudo, do que deseja ao longo de sua vida. O melhor equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho nada tem a ver com a regra dos 50/50, mas sim com a intensidade dos momentos de realização e de felicidade que permeiam a vida em todas as suas etapas.