Energia

13/10/2011
Suani T. Coelho, Patricia Guardabassi e Renata Grisoli; CENBIO

Editorial Swisscam Magazine 66
http://www.swisscam.com.br/edicao-66-foco-energia.html

A experiência brasileira com biocombustíveis

O transporte é um elemento integrado e essencial do estilo de vida moderno, sendo em grande parte dependente de combustíveis à base de petróleo, resultando em diversos impactos ambientais, especialmente com relação às emissões de GEE.

Atualmente, 13% de todas as emissões de GEE vêm do setor de transporte [1], que representou 29% do consumo total de energia em 2007.

Os biocombustíveis são uma das poucas alternativas viáveis disponíveis no curto prazo aos derivados do petróleo. Outras tecnologias, como veículos elétricos ou híbridos, ainda estão em desenvolvimento e estarão comercialmente disponíveis apenas em 10 a 20 anos. Os biocombustíveis líquidos existentes comercializados incluem o bioetanol (para substituir a gasolina) e o biodiesel (para substituir o óleo diesel).

Até recentemente, o uso de biocombustíveis era limitado a mercados locais e desempenhava um papel marginal na matriz energética global. Porém, atualmente estes adquiriram uma dimensão global, com o potencial para ampliação e reduzidos impactos ambientais ou sociais.

O etanol é um biocombustível que substitui aproximadamente 3% da gasolina de origem fóssil consumida no mundo hoje. É produzido pela fermentação de produtos agrícolas, como a cana-de-açúcar, o milho e o trigo. A principal vantagem do etanol de cana-de-açúcar é seu balanço energético positivo em comparação ao etanol de milho ou com o etanol de outros cultivos.

O etanol de cana-de-açúcar é uma alternativa atrativa frente a gasolina [1]. É produzido a partir de produtos agrícolas e não tem as impurezas encontradas nos produtos derivados do petróleo, como óxidos sulfúricos, compostos de chumbo e materiais particulados que são as principais fontes de poluição nas áreas metropolitanas.

Cerca de 110 países cultivam cana-de-açúcar para produção de açúcar em todo o mundo. Uma opção interessante para esses produtores, principalmente para países em desenvolvimento, seria a transferência da experiência brasileira, beneficiando-se das lições aprendidas durante mais de 30 anos [2]. A produção de etanol de cana-de-açúcar seria não apenas para consumo interno, mas também para exportação. Em geral, os países em desenvolvimento têm um potencial maior para produção de biomassa do que os países industrializados, devido às melhores condições climáticas e menores custos de mão-de-obra. Assim, diante da possibilidade de um mercado interno reduzido para biocombustíveis, esta produção poderia representar uma oportunidade de exportação para outros países.

Partindo deste pressuposto, espera-se um crescimento do comércio internacional de biocombustíveis e/ou matérias-primas de países em desenvolvimento para países desenvolvidos, com implicações positivas significativas para o desenvolvimento [3].

O crescimento da produção de etanol e a adoção de misturas obrigatórias, especialmente nos Estados Unidos e na União Europeia, têm levantado preocupações sobre sua sustentabilidade em relação aos impactos ambientais e sociais, o que resultou no desenvolvimento de critérios de sustentabilidade visando à certificação de biocombustíveis.

Tais questões têm sido exaustivamente estudadas e os resultados indicam que, quando utilizados procedimentos apropriados, os biocombustíveis podem ser produzidos de maneira sustentável, não apenas no Brasil, mas também em outros países em desenvolvimento, com impactos ambientais reduzidos e sem afetar a segurança alimentar [4].

Considerando a falta de capacitação técnica em muitos países e a necessidade de financiamento, seria necessário discutir uma flexibilização para a implementação da certificação, com prazos e metas adequados, que permitiriam que os países mais pobres tenham tempo suficiente para cumprir tais critérios de certificação. Esses aspectos são discutidos em uma perspectiva detalhada em UNCTAD [5], que destaca o fato de que os critérios de certificação não deveriam ser usados como uma forma de proteger os agricultores europeus.

Considerando todas estas preocupações, há três pré-condições para o desenvolvimento sustentável de um mercado de biocombustíveis: (a) conduzir um zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar para identificar as áreas de produção; (b) estimular o desenvolvimento econômico e a criação de mercados por meio de mistura obrigatória de etanol em toda a gasolina vendida; e (c) estimular o desenvolvimento rural, construindo indústrias, gerando emprego e renda, para redução da pobreza.           

 

Suani T. Coelho é professora da Universidade de São Paulo e coordenadora do CENBIO (Centro Nacional de Referência em Biomassa).
Patricia Guardabassi é Doutoranda em Energia e pesquisadora do CENBIO.
Renata Grisoli é Mestre em Energia e pesquisadora do CENBIO.

Referências

[1] Goldemberg, J., Coelho, S. T., & Guardabassi, P. (2008). The sustainability of ethanol production from sugarcane. Energy Policy, 36, pp. 2086-2097.
[2] Goldemberg, J., & Moreira, J. R. (1999). The alcohol program. Energy Policy, 27, pp. 229-245.
[3] UNCTAD. (2009). The Biofuels Market: Current Situation and Alternative Scenarios.
[4] EGESKOG, A. et al. Integrating bioenergy and food production- A case study of combined ethanol and dairy production in Pontal, Brazil. Energy for Sustainable Development v. 15, p. 8-16, 2011.
[5] UNCTAD. (2008). Making Certification Work for Sustainable Development: the Case of Biofuels.