Educação

27/10/2009
Ilona Becskeházy
Diretora executiva da Fundação Lemann. (www.fundacaolemann.org.br)
Editorial Swisscam Magazine 58
http://www.swisscam.com.br/edicao-58-foco-educacao.html

Na era do conhecimento, educação de qualidade é a chave para uma nação crescer. Afinal, crianças bem formadas no ensino básico se tornam adultos que podem desenvolver ao máximo seu potencial intelectual e produtivo - e uma geração de pessoas assim é capaz de fazer uma verdadeira revolução econômica e social em um país.

Uma análise rápida dos dados disponíveis mostra que, infelizmente, as escolas no Brasil ainda precisam avançar muito para oferecer a suas crianças um ensino de qualidade. No PISA, exame da OCDE que mede as habilidades de alunos de diversos países em ciências, matemática e linguagem, o resultado brasileiro é sofrível. Em matemática, por exemplo, o Brasil ocupa a 54ª posição entre 57 países. Quase metade dos alunos (46,5%) não ultrapassa o nível mínimo de conhecimento esperado para a sua idade. Para efeito de comparação, no mesmo ranking, os alunos suíços aparecem em sexto lugar e apenas 4,5% deles não ultrapassam o nível mínimo.

Alterar esse preocupante cenário brasileiro é tarefa urgente se pretendemos garantir um futuro melhor para o país. Mas, como chegar lá?

Há sete anos, a Fundação Lemann, uma organização sem fins lucrativos, trabalha para acelerar essa transformação nas escolas públicas brasileiras de ensino fundamental. E faz isso através de um foco principal: a gestão escolar. Parte do princípio de que é indispensável haver diretores escolares e gestores educacionais bem preparados para liderar o necessário processo de mudanças que teremos pela frente. Após um mergulho profundo na realidade do sistema de ensino do país, a Fundação definiu cinco temas que considera estratégicos para o avanço da educação no Brasil. São eles:

Existência de padrões de ensino e controle da sala de aula - A falta de um currículo padronizado e de uma supervisão constante por parte de diretores e gestores educacionais permite que cada professor, em cada uma das 159 mil escolas brasileiras, prepare suas aulas da maneira que achar melhor. Não há um controle sobre aquilo que efetivamente se ensina. Ter objetivos claros e mensuráveis para alunos e escolas, bem como mecanismos para monitorar os avanços no cumprimento desses objetivos, é essencial para garantir o direito de todas as crianças à educação de qualidade.

Uso das avaliações para melhorar a sala de aula - Existem hoje no Brasil diversas avaliações de desempenho dos alunos. São elas que nos permitem traçar um diagnóstico do sistema educacional, de modo objetivo. Tais informações, no entanto, nem sempre são usadas para subsidiar o desenvolvimento de melhores políticas públicas e práticas pedagógicas. Sem isso, de pouco adianta diagnosticar os problemas.

Equilíbrio entre autoridade e responsabilidade - Poucas escolas brasileiras contam hoje com autonomia para decidir como gastar seus recursos financeiros ou administrar sua própria equipe. A consequência é o enfraquecimento do compromisso com os resultados dos alunos e o menor envolvimento da comunidade com as escolas. É preciso que elas tenham autoridade para fazer escolhas relacionadas ao seu funcionamento, assumindo, ao mesmo tempo, a responsabilidade pelo cumprimento das metas de aprendizagem.

Equilíbrio entre direitos e deveres - O caminho para a melhoria da educação passa, sem dúvida, pela valorização do magistério. Não apenas pelo aumento dos salários, mas, principalmente, pelo aumento da responsabilidade dos professores. É importante que os profissionais de educação tenham os seus direitos respeitados, mas que, além disso, estejam preparados para cumprir com seu dever primordial: garantir o acesso ao aprendizado de qualidade a todos os alunos.

Gastar no que agrega valor - No Brasil, além de os investimentos em educação serem reduzidos quando comparados aos de outros países, os recursos são, em geral, mal empregados e geridos. Para reverter essa situação é necessário, por exemplo, estudar sistematicamente como os gastos em vários insumos e políticas afetam os resultados de aprendizagem dos alunos.

É possível avançar, sim. Mas, não sem antes fazer esse dever de casa.