Explicando o “otimismo”

11/01/2016


Pezco Microanalisys

As projeções da Pezco Microanalysis sobre a recuperação da economia neste ano foram recebidas com surpresa. A consultoria previu que o PIB real ficará estável neste ano, o que exigirá uma recuperação nos trimestres seguintes, considerando que neste primeiro trimestre a economia ainda está em queda. Em uma pesquisa recente do Valor, o segundo mais otimista espera queda de 1,9%.

Os detalhes técnicos da projeção não cabem aqui. Vale apenas um conjunto de comentários, para que o leitor entenda por que este ano pode ter alguma recuperação - ainda que nada espetacular.

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que a recuperação da economia não significa que a política econômica esteja acertando ou que finalmente o país reencontrou o rumo do crescimento. Nada disso.

Aliás, a quantidade de desaforos que foram feitos nos últimos anos e que continuam sendo praticados pelo governo nos meteram numa enrascada difícil de sair.

Em palavras fortes e diretas, os governos Lula e Dilma foram indubitavelmente desastrosos sob o ponto de vista econômico. Mas, ao ler o restante do post e formar sua opinião, por favor esqueça as paixões políticas.

É que, mesmo com todo esse desaforo, a economia brasileira tem uma resiliência não desprezível. Não é a primeira vez que essa economia é vítima de grandes besteiras em matéria de política econômica, e em todos os casos ela se recuperou. Desde a crise dos anos 30, não há caso de duas belas quedas consecutivas no PIB anual do Brasil.

Mais tecnicamente, há grandes evidências de que esta economia já caiu abaixo de seu crescimento potencial, e tende a retomar esse potencial, senão por inércia.

O ano de 2016 traz diversas vantagens em relação ao conturbado ano de 2015. Vale lista-las:

- O mercado de trabalho já sofreu um duro ajuste, o que permite às empresas contratarem trabalhadores com melhor produtividade a preços mais razoáveis.

- O ajuste dos preços já ocorreu e agora há elementos favoráveis no preço da gasolina e da energia - em função da defasagem de preço (no primeiro caso) e da melhora nas condições de oferta (no segundo caso)

- Ativos financeiros já embutem expectativas muito ruins, precificadas, e qualquer suspiro poderia puxar esses preços para cima.

- Serão mais dias úteis, em ano bissexto, e os feriados cairão em dias neutros, com menos enforcamentos. Acho que vamos trabalhar mais, neste ano, o que ajuda o PIB. O carnaval será mais cedo, ou seja, o ano começa pra valer na segunda quinzena de fevereiro!

- Em um ponto bem técnico, os analistas apontam que o carry over negativo para 2016 é grande. Mas também era em 1992 e em 2009. Entretanto, o resultado negativo foi menos ruim do que indicava o carry over, ou seja, na margem, houve recuperação.

- A crise aberta (veja no fim do post nosso prognóstico no cenário alternativo) não interessa a ninguém. A chance de uma coalizão de forças que evite uma crise política não é desprezível, evitando uma deterioração das expectativas e até levando a uma recuperação dos ativos.

- Alguns players internacionais, como o Saxo Bank, já manifestaram que esperam uma recuperação da economia brasileira. Por outro lado, o comportamento de manada dos forecasters é típico e é difícil desviar dele sem ser uma casa de research independente. E há casas independentes apostando nessa recuperação.

- Copa e Olimpíadas são péssimos para a economia e os agentes sabem disso - já incorporaram as projeções de que megaeventos são coisas ruins. Mas esses agentes esquecem que jogos olímpicos têm efeito marginal de curto prazo mais positivo sobre a economia do que a Copa. Portanto, muita gente subestimou o efeito dos jogos do Rio, achando que é Fifa de novo.

- As projeções de queda do PIB levam em conta grandes quedas do investimento agregado, de até 10%. Mas o investimento já despencou em 2015. O que é que sobrou no CAPEX para se cortar em 2016? Na verdade, já há empresas retomando planos de investimento pensando que, em algum ponto nos próximos anos, essa economia volta a crescer minimamente.

- Ainda sobre investimento, os setores exportadores estão investindo com câmbio mais favorável. Na área de infraestrutura, alguns projetos que saem já impactam em relação a uma base que foi a mínima histórica. Isso reforça que é difícil o investimento cair muito abaixo do chão.

- Alega-se que a vibe do Congresso não está para reformas estruturais. Só que, no vácuo do Executivo e por iniciativa do próprio Congresso (Senado, no caso) está andando o novo Código Nacional de Ciência & Tecnologia. Não é comum que iniciativas legislativas gerem reformas institucionais de longo alcance, e teremos uma neste ano, com efeito sobre a produtividade. Isto é pouco?

- Na margem, alguns indicadores de confiança mostram alguma recuperação. O Sudeste não está bem, mas as demais regiões têm um pouco mais de alento devido a negócios mais dependentes de exportação e de outros elementos regionais.

Claro que a Pezco construiu um cenário alternativo. E o que poderia desencadear uma piora significativa das coisas? São duas respostas. A primeira vem de fora, como uma grave crise chinesa.

A segunda vem de dentro: uma forte deterioração das expectativas. Se a crise política degringolar, ou se a política econômica voltar com força à tal Nova Matriz, com certeza vamos despencar.

No cenário alternativo, entretanto, não cabe falar em queda de 3% na economia. Neste caso, estamos falando de crise aberta. Quebradeira de empresas em diversos setores. Empoçamento de crédito generalizado. Problemas de liquidez seríssimos.

Nesse cenário alternativo, o PIB cairia 5 ou 6%, pelo menos. É uma catástrofe econômica, que talvez arraste outros emergentes, com impacto global. Infelizmente, a probabilidade desse cenário alternativo não é desprezível. Mas este não é, de forma nenhuma, o cenário base. Portanto, apostamos no "otimismo" do crescimento zero.

Em outras palavras, os dois cenários da Pezco são polares. Ou a economia recupera um pouco, em direção ao seu potencial, mantendo o mesmo (baixo) PIB do ano passado; ou a coisa degringola de vez, com uma crise importante. Não tem meio termo. Os 3% de queda que o mercado espera não parecem factíveis.

A Pezco foi citada pelo El País como uma das que mais acertou para 2015. Tomara que esteja certa novamente. Neste caso, o ano não será maravilhoso, mas pelo menos teremos alguma recuperação. Pra bolinha que o Brasil vem batendo, empatar o PIB já será uma grande vitória!