Nos anúncios que antecedem a exibição do filme Avatar, uma caixa de Sedex parece saltar da tela durante a propaganda dos Correios. O efeito é a nova arma dos anunciantes para causar impacto na audiência. Com a onda de estreias de filmes em terceira dimensão - há pelo menos 20 programados até o fim do ano -, produtoras de comerciais capacitadas em filmar em 3D estão ganhando clientes executando comerciais com essa tecnologia, ou convertendo os comerciais para o formato.
A questão em pauta é a durabilidade dessa onda. Os anunciantes fazem as contas para ver se vale a pena investir em comercias 3D, mais caros, ou adaptar suas peças publicitárias para sobreviver à atual demanda. Afinal, o cinema em terceira dimensão não é exatamente uma novidade. Na década de 20, com técnica mais rudimentar, surgiram películas capazes de proporcionar a sensação de profundidade. A novidade não decolou. Os custos não compensavam - situação que se repetiu em outros períodos, mas que agora ganha fôlego. Mas agora, a tecnologia farta e mais acessível deu impulso à mudança. Hollywood, polo mundial dessa indústria, avisou que vai concentrar investimentos no cinema em três dimensões.
"O negócio do cinema tinha de reagir e recuperar a magia da tela grande, porque perde dinheiro para a TV de plasma na residência das pessoas e a pirataria", diz Rodrigo Olaio, sócio e diretor da Mono 3D, produtora que há quase quatro anos se dedica a filmes, eventos e promoções com recursos 3D. No momento, prepara uma sala especial da Telefônica para demonstrar seu serviço de "telepresença" (que permite reunião à distância por telefone, mas com imagens e sensação de presença física). "O processo de produção em 3D é o mesmo há 100 anos. São dois canais de imagens que requerem o uso dos óculos para se ter o efeito de profundidade. Usamos aqui o mesmo software da Pixar, empresa dos estúdios Disney."
TRANSIÇÃO
Sócio e presidente da 3D Impact Media, empresa de soluções e serviços nesse segmento, Michael Kronenberg, acredita que o mercado vive uma transição sem volta, e a oferta de imagens 3D vai dominar o cenário. "Quando o cinema era a única alternativa para exibição de produções em terceira dimensão, o interesse pelo uso do recurso poderia ser mais restrito", diz. "Mas atualmente há oferta de ações em 3D para a internet, em celulares e, em recente feira de tecnologia em Las Vegas, fabricantes como Panasonic, Toshiba, LG e Sony apresentaram a televisão 3D. É um mercado gigante que começa a se configurar e vai exigir produção de conteúdo 3D."
Apostando nisso, há quatro anos, Kronenberg convenceu investidores a abrir a empresa que hoje comanda e tem sede no Brasil e escritórios em Nova York, Los Angeles, Montevidéu e Zurique, na Suíça, seu país natal. "Oferecemos ferramentas em terceira dimensão que já dispensam o uso de óculos para se obter o efeito." Aliás, para ele, o futuro do 3D é se libertar dos incômodos óculos que, em alguns casos, provocam enjoos e dores de cabeça.
Hoje, a 3D Impact Media faz filmes publicitários para mercados europeus e americanos. "Acho que, nos países emergentes, até pela carência em relação aos outros estágios do avanço tecnológico, a implantação da onda 3D será mais rápida."
Por enquanto, entretanto, o cinema ainda é o foco dos filmes publicitários em 3D. André Porto Alegre, diretor comercial da Circuito Digital, operadora que comercializa espaços em mais de 300 salas no Brasil, concorda que a adesão da produção ao 3D cresce com o aumento da oferta de salas. "Das 2,1 mil salas de cinema no País, apenas 100 oferecem o sistema 3D, que ainda é caro e depende de equipamentos importados. Mas o parque exibidor nacional tem condições de fechar este ano com 10% a 15% das salas em condições de projetar em 3D."
A Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas estima que o faturamento do setor em 2009 foi de R$ 900 milhões, sendo 5% de publicidade, alta de 20% ante 2008. A animação A Era do Gelo 3 atraiu mais de 9 milhões de pessoas. As 70 salas em 3D (10% das telas onde o filme foi exibido) foram responsáveis por metade de toda a arrecadação.