Ajuste lento

12/08/2015
Frederico Turolla

Pezco Microanalisys

A lentidão do ajuste macroeconômico é tema quente do debate brasileiro atual. Porém, há uma outra lentidão de ajuste que é estrutural, acontecia mesmo nos bons tempos de crescimento. Trata-se da lentidão em que os preços relativos se ajustam nas diversas regiões deste grande Brasil, frente a choques de diversas naturezas.

Um estudo recente do FMI tocou justamente neste ponto. A segmentação do mercado causada pela divergência de preços relativos pode ter graves implicações macroeconómicos e sociais. Em boa parte, essa segmentação se deve às deficiências de infraestrutura.

Intuitivamente, há uma lei econômica conhecida como a Lei do Preço Único, segundo a qual os preços de um mesmo bem em lugares diferentes, dentro ou fora de um país, devem convergir ao mesmo nível, com o tempo. Intuitivamente, se está caro num lugar e barato no outro, as pessoas vão deixar de vender o bem onde está barato e vão vender onde está caro. Isto vai encarecer o bem onde está barato e baratear onde está caro, gerando uma convergência.

O que impede a Lei do Preço Único de funcionar, na prática? O governo cria barreiras que mudam artificialmente o preço entre mercados. E a falta de infraestrutura também impede essa Lei de mostrar seus efeitos, ou pelo menos retarda bastante.

É fácil perceber: se os preços estão caros no interior do Amazonas, em regiões servidas por transporte fluvial, e baratos em São Paulo, o fluxo de bens entre essas duas regiões levará tempo para ocorrer - devido à deficiência da infraestrutura de transportes. Assim, a Lei do Preço Único só vale no longo prazo, e muitas vezes não chega a se concretizar.

Outro exemplo são os bens baratos de Miami, sonho dourado da classe média brasileira, especialmente quando o câmbio está favorável aos brasileiros. Limites de compras e a fiscalização nos aeroportos impedem que os bens baratos de lá venham para cá. Por muito tempo, prevalece uma diferença significativa de preços.

Voltando ao estudo do FMI, os economistas da instituição notaram que, na sequência de um choque para o preço relativo de um bem, os preços convergem para o ponto de referência de São Paulo - cidade tomada como referência - de forma muito lenta. Em várias cidades brasileiras, os preços levam mais de um ano para convergir aos níveis de São Paulo, após um choque.

É claro que há outras razões para essa baixa convergência interna entre as cidades brasileiras, como o nosso maluco sistema tributário ou a própria estrutura federativa brasileira, assim como as regulações insensatas do nosso esquisito arcabouço legal. Mas certamente a deficiência de infraestrutura tem uma grande culpa tanto pela baixa integração dos mercados brasileiros quanto pelas nefastas consequências macroeconômicas e sociais que, como mostrou o estudo do FMI, esse estado de coisas vem provocando.

Leia o estudo, disponível em: http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2015/wp15180.pdf